MIJA EM MIM!
Sábado, em Ipanemabeach, presenciei uma cena lamentável. Aliás, várias. Fui convencida por amigos da onça de que o templo da plumagem, da pena e do boá, poderia me dar uma boa demonstração do que eles consideram diversão. Entediei, anuncio: FARME DE AMOEDO, onde tudo pode pode tudo tudo pode ui. Uma chatice, uma forçação de baaaaaaarra. Eu não curto Ipanema porque é tudo muito óbvio, da bossa nova a bunda das bibas. Ipanema não tem bossa, mas tem apelo demais. Cansa.
Pois bem, após ficar mais de duas horas em pé enganando meu espírito que queria o carnaval caseiro da cabeça metida entre as pernas do travesseiro e as pernas roçando nos cobertores e nos lençóis, com no máximo a luz de um celular devidamente desligado, eu tive a brilhante idéia de circular para ver se com o mais animado eu me animaria. E pra desgosto do narrador, caímos numa reive que tava rolando na areia (areia não, poeira).
E é aí que começa a descrição da cena lamentável: música comendo solta, neguinho mandando uma tal de Cristiane ir, vai, Cristiane. E nada da Cristiane ir. Depois Ivete Sangalo e seu hino drogadito “como se eu fosse flor você me cheira” e todo mundo rolando na areia que nem bife a milanesa. Corta que isso não era reive, era uma festa de tudo junto. Aliás, não existe reive no Rio de Janeiro, conversemos. E mais um verso de Ivete Sangalo “como se eu fosse flor você me rega” ilumina meus ouvidos.
Pronto, “como se eu fosse flor você me rega”. O Golden Shower inspirou os homens presentes, que decidiram mijar todos de uma vez só, em uníssono, sobre o corpo de Iemanjá. Abertamente, como se o mar fosse um mictório anunciado. Ok, vá lá um xixi enquanto se banha, permitido. Mas peraí, um bando de sacudo de costas pro asfalto e de frente pras águas mostrando a bica pra Iemanjá? Achei um abessurdo, bateu uma pena. Se fosse reveillon ia rolar perfume, barquinho e flor que não se acaba mais (“como se eu fosse flor você me cheira”), mas como É CARNAVAL, Iemanjá teve que passar bem só no mijão. Vacilo. Ah, se Caymmi visse isso...
E por falar em É CARNAVAL, essa foi a frase/desculpa que eu mais ouvi nos últimos dias. Pra tudo e coisa cualquiera. Neguinho dava o cu pro cachorro na porta da boate e dizia que é Ah, mas é Carnaval. Nego enfiava a cara na jaca e acordava no dia seguinte vomitando os órgãos e se consolava no É CARNAVAL. Vi gente cortando o braço, tomando banho de lama e beijando OITO ao mesmo tempo sem tirar o pé do chão e só parando pra me dizer que É CARNAVAL. Mas depois que eu vi uma vendedora ambulante de destilado dizer que não tinha troco porque É CARNAVAL, eu fiquei passada. Eu não sei de onde essas pessoas tiram tanta alegria pra resolver tudo com um É CARNAVAL.
Tudo podia ser simplesassim. Ainda bem ERA CARNAVAL.

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