3.2.05

Clóvis


Às doze da noite o cansaço me aperta as pernas na cama. Enfio meus olhos no teto pra ver se cai duma goteira uma traça, um fungo ou uma lasca de reboco que me cegue e adormeça. O negrume suga a vista duma forma, fico tentando enxergar lá o que eu pinto aqui dentro. O que eu enxergo é o que eu pinto aqui dentro, sempre foi assim, nunca foi diferente. As euforias e as ilusões era apenas eu me deixando enganar pelos coloridos. Agradeci o pão e os lucros, falei pruma voz que nunca me retorna que eu tenho uma família pálida e maquiada como nos panfletos da Julio Bogoricin Imóveis, e que as crianças daqui brincam como as de lá, em piscinas que não existem de casas que ainda vão ser construídas. É foto, todos sorriem porque é foto. E esse verde que tem no jardim não é mato, é lodo. Não, a felicidade não é CMYK. As crianças maiores usam chapéus e os velhos estão sempre sentados na sombra. À avó nunca desejei exílio, mas é lá que ela se encontra com os que como ela exageram nas histórias. A busca pelas cifras asila meu futuro e não é permitida a entrada de animais domésticos. Lá existe uma academia para malhar as gorduras da vizinha e se esquecer das próprias. O resto eu nunca soube de onde veio e nem aonde cai. Um dia tudo cai, a minha bunda cai, o World Trade Center caiu, os meus peitos caem, a Torre de Pisa cai, o Papa cai. Nada disso me preocupa mais que ver minha velhice se concentrar numa estante curvada de livros que a qualquer hora...CAI. O resto? Quem mede o que é resto, quem é que não vive de sobras? A vida é um engarrafamento, quanto mais me distraio e evito buzinar, mais o trânsito flui. Trabalho só considero o que rasga minha boca com um sorriso, o que faz construir dinheiro fazendo o que se gosta. Sofrer por sofrer é melhor sofrer por amor. O resto é escravidão, sofrer por amor não é escravidão. E quem é que não queria estar permanentemente interditado pra obras? Incomoda-me até o edredom, me sufocam as almofadas. Trago o lençol pro centro até que me incomodem as dobras, o pano, a cama, o teto, o sono.